A teoria musical é fundamentada na organização dos sons, e um dos conceitos essenciais para compreendê-la é a estrutura das escalas musicais. A compreensão de tons e semitons é crucial para a construção das escalas e também para entender um fenômeno histórico: as notas enarmônicas.

Tons e Semitons: A Base da Construção Musical

Como já vimos anteriormente, na música ocidental, temos sete notas principais: , , Mi, , Sol, e Si. No entanto, dentro da “oitava” (ops!) “cromática” (ops!), encontramos doze notas diferentes, pois, por exemplo, na “escala” (calma! chegaremos nisso, logo) de Dó maior, no piano, só usamos as notas de cor branca (que são as sete notas que nos referimos há pouco, e não usamos essas cinco notas “faltantes”, que são as das teclas de cor preta, em cada “oitava”. Como temos somente sete nomes de notas, para nomear essas outras cinco notas, usamos sinais de alteração, onde as notas mantém o mesmo nome, mas são seguidas desses sinais e, então recebem novos nomes (Dó#Dó sustenido, por exemplo):

Sinal de Alteração: Função:
Bemol () Abaixa a altura da nota em um semitom.

Sustenido () Eleva a altura da nota em um semitom.
Bequadro () Cancela um sustenido ou bemol anterior, retornando à nota natural.
Dobrado sustenido (x) Eleva a altura da nota em dois semitons (um tom inteiro).
Dobrado bemol (𝄫) Abaixa a altura da nota em dois semitons (um tom inteiro).

 

  • Veja os artigos A origem da Música e A origem da Pauta, para você recordar o assunto sobre o nome das notas musicais;
  • Um semitom é a menor distância entre duas notas na escala temperada, como de Mi para ou de para Dó sustenido;
  • Um tom equivale a dois semitons, como de para ou de para Sol;
  • Usaremos sempre o exemplo das teclas do piano, pois é visualmente mais compreensível;

A “escala” “maior” (sim, há outras) é estruturada com a seguinte sequência de intervalos: Tom – Tom – Semitom – Tom – Tom – Tom – Semitom (TTSTTTS). Essa estrutura define as escalas e explica, por exemplo, por que a escala de Dó Maior é formada apenas pelas teclas brancas do piano (os S, de semitom, são os espaços em que não há teclas pretas, de Mi para e de Si para .

A Evolução das Notas Enarmônicas e os Sistemas de Afinação

As notas enarmônicas são aquelas que possuem nomes diferentes, mas representam o mesmo som em instrumentos afinados em temperamento igual. Exemplos comuns são:

  • Fá sustenido (Fá#) = Sol bemol (Sol)
  • Dó sustenido (Dó#) = Ré bemol ()
  • Sol sustenido (Sol#) = Lá bemol ()
  • Lá sustenido (Lá#) = Si bemol (Si)

Outros exemplos em tabela, no final do artigo.

No entanto, essa equivalência entre notas não existiu sempre. Nos sistemas de afinação antigos, como o pitagórico e o mesotônico, essas notas eram afinadas de forma ligeiramente diferente devido às comas musicais.

O Que São Comas Musicais?

As comas são pequenas discrepâncias que surgem ao organizar os intervalos musicais de maneira puramente matemática. Existem duas principais:

  • Coma pitagórica: Surge no sistema pitagórico ao empilhar doze quintas perfeitas e compará-las a sete oitavas. A diferença resultante é de cerca de 23,46 centésimos de tom.
  • Coma sintônica: Presente em sistemas que aproximam as terças maiores da proporção 5:4, resultando em uma diferença de cerca de 21,5 centésimos de tom.

Por causa dessas comas, em sistemas antigos Fá# e Sol♭ não eram a mesma nota! Cada uma delas tinha uma altura ligeiramente diferente, influenciando a sonoridade dos instrumentos e a execução musical.

Sistemas de Afinação ao Longo da História

A evolução da afinação não ocorreu “da noite para o dia”, mas foi um processo extenso e teve várias fases; aqui contaremos apenas algumas, pois nos interessa mais a questão de como ela funciona atualmente, ou seja, aquela que possibilita a enarmonia.

1. Afinação Pitagórica (Idade Média)

Baseado na sequência de quintas justas, esse sistema funcionava bem para melodias, mas produzia intervalos desafinados para harmonia. Nessa afinação, notas enarmônicas como Fá# e Sol♭ eram de alturas distintas.

2. Temperamento Mesotônico (Renascimento)

Desenvolvido para melhorar as terças maiores, esse sistema ainda mantinha diferenças entre notas enarmônicas, embora menores do que na afinação pitagórica.

3. Temperamento Igual (Barroco e Clássico)

No temperamento igual, a oitava é dividida em 12 semitons de tamanhos idênticos, o que tornou todas as notas enarmônicas equivalentes. Com isso, Sol# e Lá♭ passaram a ser exatamente a mesma nota.

Como Isso Afeta as Escalas Musicais?

Com o temperamento igual, tornou-se possível modular para qualquer tonalidade sem que desafinações ocorressem. Isso permitiu avanços como “O Cravo Bem Temperado” de Bach, que explora todas as tonalidades de forma equilibrada.

Além disso, esse sistema reforçou a estrutura das escalas maiores, permitindo que todos os instrumentos tocassem igualmente em todas as tonalidades. O padrão TTSTTTS se manteve constante, independentemente da nota inicial.

Abaixo, tabela com algumas das enarmonias possíveis:

Nota: Equivalente a:
Dó #
Ré # Mi
Mi #
Fá # Sol
Sol #
Lá # Si
Si #
Mi
Si

Nos próximos artigos trataremos de graus, escalas e da formação de acordes e, nessas matérias, perceberemos que há outras notas enarmônicas além das citadas acima, em que usamos apenas dois (sustenido e bemol) dos sinais de alteração. Também exploraremos esse padrão na prática, montando escalas maiores e analisando suas respectivas armaduras de clave. Fique atento e continue aprofundando seus conhecimentos em teoria musical! Então você entenderá porque usamos nomes diferentes para notas com o mesmo “som”, dependendo da aplicação, do tom.

Conclusão

O conceito de enarmonia e a estrutura de tons e semitons estão intimamente ligados à evolução dos sistemas de afinação. Hoje, consideramos, usando o mesmo exemplo, Fá# e Sol♭ como a mesma nota, mas essa equivalência nem sempre existiu. Com a padronização do temperamento igual, o padrão TTSTTTS permitiu a uniformização das escalas, facilitando a transposição e a execução musical.

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